De Tim Maia a Caetano

Devaneios sobre um universo em desencanto e ideias que trazem esperança

https://www.b9.com.br/105394/finalmente-a-trilogia-tim-maia-racional-esta-nas-plataformas-de-streaming/

Sou admiradora indiscutível da música de Tim Maia e, como admiradora, não posso deixar de acreditar que se algum aspecto de sua vida tivesse sido diferente, talvez ele ainda estivesse entre nós. Creio que a mudança mais drástica no seu pensamento foi o seu contato com a tal cultura racional, e foi justamente a desilusão com a mesma e as consequências provenientes de uma grande frustração, que possivelmente anteciparam sua morte. Creio que quando acreditamos fortemente numa ideia capaz de mudar alguma concepção em nossa vida, e percebemos que ela é incapaz de mudar o mundo, o desencanto vem com a mesma intensidade, a ponto de nos fazer perder o sentido de viver. Óbvio que esta resolução não cabe a todos.

Sou fã, não sou biógrafa de Tim Maia e não vou trazer nenhuma informação além, seja sobre sua carreira ou sua vida, trago aqui, apenas ilusões para um final diferente ou um não-final. Tim Maia era um sonhador, assim como eu, por isso, tenho certo apego à sua imagem e história. Escrever sobre isso, para mim, representa um certo amadurecimento à minha visão individual sobre uma figura pública, e quanto à separação de indivíduo e persona. Assim, como não preciso dizer que obviamente não tenho qualquer apreço por questões de sua vida pessoal.

Toda vez que escuto os volumes de Racional, de Tim Maia, sou inundada por uma série de pensamentos aleatórios, e gostaria de dividir alguns deles. Não sei se concordo que esta seria sua melhor obra, e falo sobre isso a nível pessoal, pois as letras me incomodam demais — mas as melodias são maravilhosas, por isso, continuo ouvindo. Me incomodam porque não sou religiosa e desconfio da prática de qualquer uma delas, assim como, desprezo as insistências de qualquer pessoa em tornar obra/autor/parte de um livro em dogmatismo, sem analisar concretamente a situação concreta, sem contextualizar períodos históricos e, principalmente, a falta de questionamento perante a imposição de uma ideia — é a forma que eu vejo as religiões no geral, são ideias sobre a vida, sobre a morte, sobre a forma de viver, de encarar e enxergar o mundo e as pessoas. Mesmo quando doutrinas com práticas religiosas negam a ideia de religião, seita ou qualquer coisa do tipo com o intuito de fugir de um rótulo que permeia a moral, à moralidade e ao moralismo. — Isso tudo vindo de alguém que acreditou piamente em astrologia e passava horas por semana estudando até poucos anos atrás.

Entendo muito bem o que é ficar entusiasmada com um livro capaz de te fazer repensar completamente o mundo e os modos de vida, quando se abre uma porta para uma nova compreensão da realidade e da História. Isso aconteceu comigo quando me aproximei do Marxismo e não teve livro específico que me fez sentir isso, mas um conjunto de obras e autores que compõem uma ideologia. Podem dizer que é preciosismo teórico, ou tentativa de pertencer a um academicismo impossível para alguns (como a vida toda achei que fosse para mim), ou chamar de utopia — sendo que aos olhos de Marx, a utopia estava em uma outra ideia. Cazuza tinha razão quando manifestou a desilusão perante à impotência individual ao ver seu país em meio ao caos da ditadura, mas ter uma ideologia para viver é como uma última esperança frente às desilusões do dia a dia. Eu entendo como uma ideia capaz de mudar a vida — e não só a minha, é algo coletivo, é muito maior do que eu, ou dela, ou dele, ou deles. É da totalidade que estamos falando — . E uma ideia muito perigosa, por isso, na História, quem pensava parecido foi extinguido, exilado, executado. E, qualquer sombra de uma nova força locomotora é apagada antes mesmo de incendiar, e isso se dá diariamente na grande mídia, e toda vez que um filme mostra o “terror” que foi a URSS, toda vez que alguém se diz socialista moderado/democrata, toda vez que contam estórias desonestas sobre países que fizeram uma revolução socialista e caminham para uma mudança concreta, toda vez que uma indústria cultural dissemina sem freios um anticomunismo fantasmagórico, como se a Guerra Fria nunca tivesse acabado. E não acabou.

Voltando ao Tim… É por isso que não me desce o delírio completo que foi Racional, o que me leva a também delirar com a hipótese de que se o Tim tivesse lido “O Capital”, uma obra inteiramente fabulosa teria saído dali, talvez fossem 3 volumes dividindo o álbum mais filé da história da música brasileira e seria um ponto de partida para uma vida diferente, talvez.

Talvez estivesse vivo — ou teria sido morto -; talvez tivesse ido pra Cuba, em vez dos EUA; talvez, tempos atrás, ele mesmo teria apresentado Losurdo, Fanon ou Mariategui para Caetano e outros camaradas artistas; talvez pérolas da MPB teriam sido lançadas sobre a América Latina e “Guiné-Bissau, Moçambique e Angola” teria outro significado; talvez se tivesse gastado a mesma energia com Hegel e depois Marx, como fez com O Universo em Desencanto, talvez cantaríamos sobre o materialismo histórico e dialético e a música de abertura seria um hino à união dos trabalhadores do mundo; talvez tivesse ido para o Partido Comunista Brasileiro, não para o PSB, no qual se candidatou a senador e não chegou às eleições; talvez “Ela partiu” seria “Ela chegou” (e revolucionou, rs) em homenagem à Krupskaia, Zetkin ou Kollontai, e já teria rolado um mea culpa sobre seu comportamento tóxico com as mulheres de sua vida; talvez também tivesse mudado a letra de “Vale tudo” e homens com homens e mulheres com mulheres poderiam cantar uma música que não os excluem, mas os representam também; talvez seria ele o primeiro a dizer que não gostava de clima de festa (que heresia! Tim Maia era um festeiro nato) e Mano Brown não teria virado meme; talvez seu apelido fosse “sindicalista” ou “subversivo”, ao em vez de “síndico”. Talvez se tudo isso tivesse acontecido desse jeito, no grande espaço desse “talvez”, talvez ele também não fosse bem-quisto hoje — se fosse exatamente do jeito que eu contei, com certeza não seria. — E vou comentar sobre isso mais abaixo.

Porém, contudo, todavia, Tim Maia era um homem de seu tempo, um cara controverso, cuja ansiedade, confusão e inquietude o fizeram viver a vida da forma que enxergava o mundo, resultando em belíssimas — e muitas vezes tristes — canções e na construção de um legado musical que a gente não consegue deixar de apreciar e cantar alto coisas sem sentido como “lendo os livros da cultura racional…”, em casa ou nas festas (só em casa, neste momento), na mesma playlist de gigantes, alguns ainda vivos, como Clara Nunes, Elis, Milton, Chico ou Jorge Ben, músicas daquele e outros tempos. É como se ele ainda estivesse aqui, eternizado e eterno.

Tim Maia tinha alguma ideia de que a vida poderia ser melhor e se agarrou à primeira chama que abrasou, como num brusco ato de se segurar numa corda quando a vida corre risco. Infelizmente, a corda era frágil demais e a ideia perdeu vida, levando consigo a esperança de dias melhores. Assim creio, que meus devaneios relacionados a uma hipótese de sobrevida é uma maneira de imaginar um “e se” e de correção aos álbuns que, mesmo renegados por ele ao final de sua vida, são os mais ouvidos e aclamados de toda sua carreira. Parte de mim, gostaria de ter visto um Tim Maia renascido, crítico ainda, mas com embasamento razoável, e que nos abençoasse com a dádiva do que seriam essas novas possíveis canções.

Se existe algum rei da música brasileira que seja ele, mas nunca foi Roberto Carlos. E, como hoje abomino ideais de monarquia e essa ideia de soberania imposta a artistas, que seja apenas Tim Maia, um dos artistas mais grandiosos e excêntricos que já tivemos, tão grande, que não coube num mundo pequeno demais para suas imprevisíveis mudanças de ideias.
Vida longa à obra de Tim Maia! — e ignoremos os devaneios sobre racionalidade.

Essa é a minha música favorita. Agora imaginem se fosse sobre outro livro e outra ideia de revolucionar a vida…

Sobre a ideia de um Tim Maia comunista, nunca vamos saber, mas dá para ter uma noção de como seria o tratamento com ele se observarmos o que tem acontecido com Caetano Veloso depois desse episódio. E, de repente, todo tipo de gente estava desdenhando do cantor, das pessoas envolvidas e do assunto, banalizando-o mais ainda. Eu me sinto muito suspeita para falar, porque se sou fã de Tim, sou muito mais de Caetano. Sou apaixonada por seu trabalho, adoro observar os diferentes ciclos da sua música, que representam suas mudanças de pensamento. Caê tem uma obra tão extensa e complexa, que dá para analisar cada álbum e contextualizá-lo com o momento histórico em que foi lançado.

Ao longo dos seus 78 anos, não parou de fazer música e tem sempre tentado se habituar ao momento e de se colocar como um intelectual, ao provocar discussões de teor político e de se manter como eterno aprendiz. Eu fico orgulhosa de ver uma pessoa dessa idade aceitando sua ignorância e expondo sua vulnerabilidade para quem quiser ver, procurando escutar gente mais jovem e estar tão empolgada com seus novos estudos a ponto de querer falar o tempo todo sobre o assunto!

Isso prova que nunca é tarde para aprender.

Isso mostra também que Caê definitivamente não é um homem de seu tempo, preso em valores atrasados, na dificuldade de entender o novo, o todo, e creio que esse entusiasmo se deve a uma ressignificação de ideais antigos que estavam ali, escondidos e perdidos, e que o levaram a perceber que todos são sujeitos políticos, inclusive, idosos. Ah, se todos os nossos conhecidos, familiares e amigos tivessem essa síntese de auto-crítica, não?

E tudo isso me deixa na expectativa de um novo álbum de Caetano, de repente, com uma nova versão para essa música (abaixo), uma faixa-confissão “Eu era um liberalóide”, um frisson à la “enquanto houver burguesia não vai haver poesia” e muita incitação à revolução socialista.

Seja ouvindo álbuns eternizados de um Tim Maia errático e furioso — porém, permanentemente romântico— , a uma nova versão de Caetano, mais crítico e com menos papas na língua (será possível para o mesmo Caê de “você é burro, cara?”), mas ao mesmo tempo, com mais ternura para falar, a música brasileira é um delírio por si só e reduzi-la — inclusive nesta frase — é um erro. Concluo que a arte tem um poder de representar a realidade de diferentes formas, e ela acompanha as Histórias e as estórias, sendo assim um agente potencializador para uma transformação social. E que mais homens de seu tempo tenham a humildade de ouvir os jovens, e que os jovens também respeitem os mais velhos, e que sempre essa troca tenha capacidade de revolucionar algo, seja um velho pensamento, seja uma nova ideia e, ainda que parta do indivíduo, que ele vá depois para o coletivo.

E, para quem tanto tem falado de Caê neste momento, fica aqui um trecho de uma bela canção:

“(…) Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho (…)”.

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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