Entre e, por favor, repare a bagunça

Eu sou o meu próprio lar

Repare na poeira que acumula sobre os livros, é sinal de que, aos poucos, eles se tornam enfeite em vez de parceiros intelectuais. Pois me falta paz para me reencontrar diante deles, ainda que um deles, o mais precioso para este momento, esteja ao lado da minha cabeceira. Repare na ausência de roupas espalhadas pela casa porque, pouco antes de você chegar, eu decidi dobrá-las e guardá-las, não para não te incomodar, mas para me agradar. Repare que não há cama feita, pois no meu despertar sempre sobram mais cinco minutos de preguiça para logo acordar e enfrentar o dia com força. Repare no meu olhar exausto, de quem mal dormiu porque tem uma longa lista de tarefas, mas apenas um corpo e uma mente para concluí-las, e muitas preocupações mesmo sabendo da incapacidade de resolver problemas na madrugada. Repare nos cheiros da casa: amaciante, areia de gato, café recém passado, fumaça de tabaco, incenso, defumador e difusor, frutas frescas e pão quentinho ainda que amanhecido, que mostram o esforço diário, ou a inquietação, de manter alguma ordem diante do transtorno. Repare nas cores, em quantos objetos e símbolos adornam este espaço e como eles representam um pouco do que eu sou, penso e sinto. Repare nas caixas de tinta, nos acessórios de beleza e produtos de autocuidado, nos meus guias, entidades e mentores, de Che a Lenin, de Frida a Marielle, de Buda a Oxalá, na materialidade dos misticismos que não abro mão pois só aguento a realidade porque dou permissão para significar o que desconheço, na louça suja dos pequenos banquetes que faço todos os dias para me nutrir ou me agradar, que não duram muito tempo na pia sob a exaustiva tentativa de não deixar o caos se instalar. Repare na quantidade de possibilidades e na minha energia de fazer acontecer impregnada em cada canto e nas paredes. Repare no espelho logo na entrada, que é para ver se você se enxerga, se seu reflexo te engana ou expressa quem você realmente é. Repare na bagunça, pois ela te diz o quão humana eu sou, genuinamente crua. Mas, não pense que é um convite para você arrumá-la (ou bagunçar mais ainda).

Sabe, por muito tempo achei que precisava esconder a ansiedade por baixo do tapete, os sentimentos profundos atrás da geladeira, o cansaço e a insatisfação numa caixa de madeira fechada a cadeado, as fragilidades dentro do armário. Acreditava que tinha que apresentar o meu melhor retrato para quem entra, esperando que isso a fizesse prolongar a estadia. Somente isso. Mas, hoje, entendo que não. É na desordem que muitos de nós iremos nos encontrar, na esperança de dias mais coloridos nos perderemos vendo-os passar pela janela ou apreciando taças de vinho, sob as estrelas e o luar, e nos aqueceremos diante da vontade de querer ficar. E, pode ir, mesmo sem saber se logo vai voltar. Pode ir, resolver seus problemas, se encontrar em outros abraços, se perder em outros corpos, se engraçar com outras risadas, se identificar com outras amizades, permanecer em outras estadas, encarar outras estradas. Mas, se voltar, venha de preferência inteiro e tudo bem se faltar algo, aqui tem bastante. Tem prato quente que foi preparado através de ideias afetivas para envolver o estômago e propiciar o degustar de novos sonhos, tem mudas semeando crescimentos e sentimentos, tem água para banhar a alma na ausência de cachoeira ou mar, tem sofá para descansar e edredom para se esquentar mesmo quando não faz frio, tem vida para se compartilhar. Porém, não se esqueça de devolver o que levou ao seu lugar, sabendo que só entrego o que tenho em abundância e nada além disso irei ofertar.

Entre, mas não fique muito à vontade, pois na minha intimidade poucos cabem. Só entre se estiver disposto a me convidar para o seu lar, pensando na necessidade de existir uma troca gentil e honesta, de cortinas abertas para o vento adentrar. Entre mas, antes, pergunte e bata na porta, porque não vai ser toda hora que poderei te receber. Não vai ser só na sua hora. Entre, mas venha descalço e despido de vaidade, pois aqui mora a minha verdade e não há espaço para falsos quereres e nem autopiedade. Entre, mas se não souber o que te traz, não te demore, porque na minha morada não há vaga para meio termo, nem copos meio cheios. Entre novamente mas, apenas se souber lidar com a minha individualidade e que seja em meio à bagunça, que não necessariamente me define, mas só te mostro por confiar que você não irá me julgar, me maldizer, nem me maltratar. Que entre, mas somente se respeitar que a minha casa é meu território, minha fonte e meu espaço mais sincero de expressão, meu local de descanso, onde adormeço e acordo para a vida que estou reconstruindo arduamente, dia após dia e tijolo por tijolo, para não facilmente despencar. Entre, mas seja você mesmo, seja de verdade, sem leviandade, não venha apenas espiar, para não encontrar a porta fechada da próxima vez.

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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