Entrevista: Mercedes Lima

Por uma voz revolucionária no Congresso Nacional

Em um momento de ano eleitoral no Brasil, no qual ideais fascistas ganham força na conjuntura social, moral e política e uma onda neoliberal se expande ao redor do mundo, a crise econômica serve o medo de banquete à população. No entanto, existe um apelo pelo poder popular que continua reverberando através da presença política e vozes de descontentamento com o sistema que nos cerca. Uma representante dessas vozes é Mercedes Lima, candidata à deputada federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), comunista, feminista, advogada e professora universitária.

Dona de uma voz ressonante, Mercedes Lima traz em sua fala a necessidade de retomar a História, de continuar batalhando pelos direitos das mulheres e pela emancipação humana e da importância da união da classe trabalhadora, organizada e orgânica, no combate e na denúncia à manutenção de um arranjo que promove a desigualdade social em todos os seus parâmetros.

Nesta entrevista, Mercedes conta um pouco sobre sua juventude e envolvimento com a política na década de 70, sobre o PCB e dá a sua visão sobre o momento político atual envolvendo: legislação, economia, militância e feminismo. Confira:

- Fale um pouco sobre você e como se sucedeu o seu envolvimento com a política.

Mercedes: Ingressei na política muito jovem, quando tinha 14 anos e morava num bairro operário da zona leste. Eu observava, durante anos, um trem que ia do Brás para Mogi das Cruzes com muita gente em cima dele, até que um dia me perguntei se aquilo era justo e um mundo se abriu para mim a partir da consciência social do local onde eu estava. Mais tarde, eu passei a frequentar um salão de baile, num bairro operário, que reunia a juventude local para ouvir Rock and Roll, dançar e conversar. Foi quando, pela primeira vez, o jovem se apresentou como um sujeito de direito, de ação - porque naquela época só existiam dois sujeitos: adulto ou criança. Era um momento de visibilidade dessa juventude, onde se tinha o Marlon Brandon na tela, conversas sobre liberdade e onde a cultura popular saia das periferias para os grandes centros. Acontece que o salão era dos ferroviários do PCB, um local que ficou fechado durante o golpe de 64 porque militares descobriram que ali tinha o comando do PCB, mas na verdade, era um espaço de entretenimento. Assim ocorreu o meu contato com o Partido Comunista Brasileiro.

- Qual a sua visão pessoal sobre essa movimentação atual dos ideais fascistas? E como que se lida ou se combate isso, individual e coletivamente?

Mercedes: A gente vive um momento em que o capitalismo está em crise no mundo todo. Após a crise econômica vem a crise política, isso quando as duas não acontecem ao mesmo tempo. E essa crise não é aceita tranquilamente pela burguesia internacional, pelos donos dos meios de produção, que estão interessados no que dá mais lucro e assim cortam investimentos, realizam demissões em massa, e quem paga essa conta são os empregados. Com isso, a sociedade, particularmente os trabalhadores, fica na ilusão, sem esperanças. Num mundo assim, de violência, agarra-se ao que parece mais viável, num cara que fala que vai colocar mais polícia na rua, mas a polícia não vai resolver um problema lá trás: a crise econômica, que gera a crise política, que gera uma sociedade de desemprego, violenta. Os brasileiros estão com medo, apavorados. Quantos na sociedade têm noção de História? Ainda mais num momento que querem proibir discutir questões sociais dentro da escola, com programas como o Escola sem Partido, por exemplo. Primeiro é isso. A tendência não é do Brasil, é só vermos as eleições na Argentina, o Macri na França, gente que tem toda aparência mais social, não é nem social democrata, então falta esperança. Sem esperança, busca-se outras vias. Não se tem fascismo no Brasil ainda, nem ditadura, tem instituições, que funcionam sob influência do fascismo e às vezes estão no poder judiciário e executivo, e teve o golpe político. Como reagir a isso? Não é fácil. A classe trabalhadora, que ao longo dos últimos governos se apaziguou, foi moldada, e até contra o golpe não teve tempo para se mobilizar. Já a classe estudantil, que surpresa, de 2013 a 2016 foi às ruas. Então, o que fazer? A classe trabalhadora tem que aprender a andar sozinha e não depender dos governos.

- Qual a sua visão sobre esse descompasso sobre o que está escrito na Constituição de 1988 e a forma como ela tem sido aplicada nos três poderes: executivo, legislativo e judiciário?

Mercedes: É preciso olhar para trás pra responder a essa pergunta. Na Revolução Francesa, houve uma esperança traduzida no ideal: Liberdade, fraternidade e igualdade. Apesar de ter sido um momento de grande euforia, nessa época, a classe trabalhadora foi derrotada. Os valores vendidos, ditos universais, não foram tratados como universais pela classe que venceu. Quem foi derrotado pensa que a Constituição tem aqueles valores, mas não é bem por aí. Eu, como advogada, dou valor, há conquistas na Constituição, no papel: o reconhecimento dos direitos fundamentais humanos, por exemplo. Questões atribuídas no código penal e civil são transformadas em valores pela Constituição, só que não: não se formula uma lei para depois não cumpri-la. O PCB não teve e não terá a ilusão de classe de que a constituição foi constituída para os trabalhadores, que é universal, que o direito à saúde é um direito humano, pois até o direito à saúde não tem funcionado como direito. Por exemplo: na Santa Casa (que quase fechou por falta de leitos), nos postos que faltam remédios. Esse é o descompasso. Não se pode ter ilusão. Na época da ditadura militar existia a ilusão de acabar com ela, mas foi quando o PCB teve um terço de corpos do Comitê Central desaparecidos. O caráter burguês não tem classe universal.

- As bancadas da Câmara com mais força atualmente são pautadas por interesses corporativos e conservadores. Como você pretende atuar nessas questões?

Mercedes: Vamos trabalhar a nossa credibilidade nesse congresso e com cuidado. Muita coisa não vai passar se o congresso não se renovar. A gente nota que tudo que cerca a esquerda tem um tempo mais curto na TV e na grande imprensa, não há oportunidade até porque o dinheiro é curto para fazer propaganda eleitoral. Para participar desse jogo, a gente (o PCB) está renunciando um princípio nosso, porque é a oportunidade de falar com a população. Uma das questões que quero tratar como candidata a esse congresso é a democratização dos meios de comunicação: não dá num país com mais de 200 milhões de pessoas ter apenas 5 famílias dominando a TV. Um exemplo disso é que o PT, por exemplo, o partido tinha menos espaço na TV e os canais não queriam o Lula, tanto que foi assim que o Collor se tornou presidente nos anos 90. Além disso, quero poder discutir também sobre a pauta do aborto, do trabalho, mas não só no congresso, com a população. A questão é que esse congresso não nos representa e ele continua a se repetir. Então, penso que não é com uma esquerda sendo eleita que a constituição será cumprida, se trata da maioria votando lá (no congresso), se trata de um congresso que se preocupa com pautas confessionais, discutindo religião, sendo que o Estado é laico, isso não faz sentido.

- Muito tem se discutido entre o bloco de esquerda — num âmbito mais geral -, nas redes sociais e fora delas, sobre o voto útil, que seria em Ciro Gomes (PDT) ou em Fernando Haddad (PT) e sobre a “racha da esquerda” por aqueles que não optam por nenhum dos dois candidatos. Como você enxerga isso enquanto principais desafios da esquerda marxista-leninista?

Mercedes: Unidade, de fato é o principal desafio da esquerda marxista-leninista, mas a questão é que não dá pra unir a esquerda em período eleitoral. Uma das maiores dificuldades e tarefas dessa coligação PCB e PSOL, inclusive, é isso. Mas não é esse tipo de unidade que nós, do PCB, lutamos, que é a união por acordo de máquina, mas sim por acordo popular, é se unir lá embaixo, na luta, nas ruas. O PCB tem compromisso com a construção do poder popular, e é por isso que acaba se encontrando com alguns partidos nas ruas. Com o PSOL, por exemplo, eles têm algo parecido (com as ideias que o PCB defende) que é a Frente do Povo Sem Medo, com o PSTU, com a força do movimento sindical, é o que chamamos de esquerda revolucionária — já na esquerda mais ampla vem o PT, PDT, PSB, que não é revolucionária porque cuida de alguns valores como a própria democracia burguesa -, mas temos divergências, senão, seríamos todos do mesmo partido. Sobre a separação da esquerda não tem como fugir, é isso: vertentes. No campo marxista, o PSTU está mais para trotskista, já nós somos marxistas-leninistas. O caminho para essa unidade seria na construção do poder popular, que é onde conseguimos dialogar com esses partidos, e aí, quem sabe assim, continuamos aprendendo com os trabalhadores.

- Fale um pouco sobre o feminismo classista.

Mercedes: Muito se pensa que no feminismo classista os homens fazem parte, mas não é bem assim. Em qualquer entidade feminista continua se recomendando que não se aceite homens, porque não podemos ter sempre o papel de cuidar dos homens, a gente tem que cuidar da gente! Não dá! Ainda mais enquanto se tem milhões de mulheres sem consciência política, sofrendo violência… Em matéria de políticas públicas, não é a polícia que vai resolver a questão da violência doméstica, por exemplo, sou consultora da Lei 11340/06 Maria da Penha, e acredito que não é com "punitivismo" que se recupera esse homem que violenta a mulher. Se colocá-lo na cadeia, ele sai de lá e vira bandido, volta com mais raiva. Não, a gente não tem que envolver os homens nessa luta, ao mesmo tempo que não dá para se contrapor a eles. A sociedade é dividida em classes: a classe trabalhadora e os donos dos meios de produção. Os homens entram no Ana (coletivo), fazem a formação, mas quem fala são as mulheres.

Uma vez um pastor me convidou para falar com as mulheres da igreja que estavam sofrendo violência doméstica. Eu me assustei com o pedido, afinal, eu sou comunista, figura que não é bem recebida nas igrejas, mas eu fui, porque eram mulheres pobres. Suponhamos que o pedido acontecesse numa igreja do jardim Europa, eu também estaria lá, é papel do marxista estar onde tiver opressão, mas se eu tivesse que ir em outro lugar para estar com a classe trabalhadora, eu iria para lá, porque no feminismo classista é isso: fazer o recorte de classe. E eu vou brigar pelo anticoncepcional no posto de saúde, por igualdade salarial e, mais do que isso: salários melhores para mulheres e homens.

- Como aconteceu a fundação do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro?

Mercedes: Eu sou membro dirigente nacional do PCB, dirigi o sindicato dos advogados do estado de São Paulo, sou fundadora da primeira Comissão da Mulher Advogada dentro da OAB, porquê pensei: “como um órgão como a Ordem dos Advogados não elege mulheres?”, e isso só se deu com o pensamento comunista. Se eu quero eleger ideias da minha categoria, tive que fundar uma comissão, ainda somos cerca de 20 a 18% de mulheres lá dentro, ainda está longe (de alcançar uma equidade). A gente não funda entidades por nada, pela beleza por exemplo, a gente luta por organicidade, porque é preciso que seja uma luta orgânica e organizada. Então, a ideia de fundar o coletivo veio com a necessidade de dialogar sobre feminismo dentro do PCB, de ouvir e falar. O coletivo tem esse nome em homenagem à Ana Montenegro que atuava com o PCB (jornalista, poeta, militante política, feminista e comunista) — o primeiro partido a ter uma secretaria das mulheres, no congresso de 54 -, que era feminista e foi a primeira mulher a ser exilada, em 64, e ficou circulando pelo mundo. Após a segunda guerra, em 47/48, os comunistas da URSS entenderam que tinham que sair pelo mundo, hoje se sabe que tiveram importância histórica, criaram organizações, se fortaleceram, por isso somos “perigosos”.

Mercedes Lima é candidata à deputada federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), seu número é 2100. Para conhecer as propostas da candidata, visite sua página no facebook.

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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