Eu não sei escolher limões

Ou qualquer outra fruta facilmente identificável como “madura”, “passada” ou “verde”. Geralmente tento perder alguns segundos apalpando e analisando a cor e o formato delas, mas dificilmente tenho sucesso, então, coloco algumas unidades dentro do saquinho plástico e as levo para o carrinho com a esperança de que estejam boas para consumi-las hoje ou em alguns dias.

Hoje não foi diferente. Precisava repor a geladeira e a dispensa com alguns produtos, assim como precisava terminar alguns exercícios de redação. Por isso, enquanto minha mente não se iluminava, meu corpo acabou vencendo a preguiça.

Coloquei um vestido qualquer e peguei uma sacola grande, onde pus minhas chaves, meu cartão de débito e uma listinha com tudo o que eu realmente precisava. Saí com óculos de sol, mas como não fazia sol, os guardei na sacola decidindo encarar o céu de fim de tarde de rosto aberto. Saí com cara de quem possivelmente acabara de acordar — pura falácia — ou com cara de quem precisava acordar.

Fui andando em direção ao fim do quarteirão, onde logo viraria à esquerda para descer até o mercado. No caminho, existem três botecos onde homens degustam seus entorpecentes da mesma maneira que olham para mulheres na rua. Malandra que sou, nunca passo muito perto de nenhum deles. Atravesso a rua, ando fora da calçada, passos sempre ágeis como quem não quer dar tempo de ouvir ou ver nada.

Hoje foi diferente. Estava de chinelos e sem qualquer vontade ou necessidade de me apressar. Fui andando no meu passo, acompanhando meu próprio ritmo, até me deparar, logo depois de virar a esquina, com dois homens de olhos de gavião que, em uma pequena fração de segundos, me mediram por inteiro. Por um momento pensei em atravessar a rua, mas me questionei do porquê fazer isso. Continuei andando, respirando firme e me certificando de que minha expressão facial não era amigável, mas não os olhei. Apenas percebi que continuaram olhando enquanto eu passava ao lado, mas nada disseram ou fizeram.

Alguns passos depois, um homem andava à minha frente e, por qualquer razão inexplicável ao meu próprio julgamento, o meu corpo começou a se apressar involuntariamente e acabei passando por ele. O homem então desacelerou o passo como que propositalmente para me encarar.

Quando cheguei ao mercado, me senti quase aliviada e pronta para caçar um carrinho. Enquanto estava procurando as promoções na geladeira torcendo para, de repente, encontrar um queijo brie a 5 reais ou alguma coisa gostosa, o homem, que tinha sido passado para trás no meu atrapalhado trajeto, entrou no mercado e passou por mim sorrindo fixamente.

Tentei não me incomodar tanto com aquilo. Quando eu digo “incomodar tanto” significa “paralisar”. Então, continuei as compras da maneira mais prática que pude. Nos corredores do mercado, nos encontramos novamente. Desta vez, ele passou por trás de mim, o que me fez sentir um arrepio ruim que eu não saberia descrever melhor a não ser como um mal-estar. Ele então foi para o caixa que ficava em frente ao corredor em que eu estava e me media dos pés a cabeça, com mesmos sorriso e o olhar curioso e assustador.

Rapidamente peguei algumas coisas naquela prateleira e saí do campo de visão do homem, mas eu ainda precisava ver o preço do amaciante de roupas. Por alguns segundos, fiquei parada em frente à outra geladeira num corredor que não havia ninguém. Senti uma raiva que logo se transformou num sentimento de justiça. Me lembrei de uma dica que as meninas de um coletivo feminista que combate o assédio me deram numa roda de conversa sobre como lidar nesse tipo de situação: encare. Retomei pensamentos necessários como: a rua também é o meu direito, eu tenho liberdade de ir e vir e ninguém pode tirar isso de mim.

Respirei fundo e sai de onde eu estava para novamente percorrer o corredor e encontrar o preço do maldito amaciante. Quando voltei, o homem continuava na fila do caixa, me olhando, me medindo e sorrindo. Virei a cara, olhei o preço do amaciante — estava mais caro que no outro mercado que costumo ir quando consigo — , deixei ali e fui em direção à fila.

Quando encostei no caixa, o homem estava embalando suas compras, mas continuava me olhando, em um ímpeto imediato, resolvi fazer a cara mais feia que pude. Senti minhas narinas se dilatarem, minhas sobrancelhas se arquearem, minha boca fechar e minha respiração ficar mais pesada. O homem fez uma expressão de surpresa, pegou suas compras e saiu. Terminei de pagar, colocar minhas compras na sacola e também sai, alguns minutos depois dele.

Assim que pisei na rua, imaginei o que representava aquela atitude que acabei de ter. Não me senti vitoriosa ou mais segura, apenas senti que fiz o que pude para tentar me defender. Muitos reduzem o assédio a uma ocorrência em que se envolva contato físico ou verbal, mas para o homem intimidar uma mulher com efetividade, bastam o olhar e os gestos. Para a mulher se defender de um assédio, nem sempre, bastam o olhar e os gestos.

Subi em direção à quitanda para terminar a lista de compras. Lugar sempre agradável, com cheiro de fruta e pessoal simpático. Comecei pelo mamão, fácil de escolher. Fui para as maçãs, que estavam molhadas. Fiquei me perguntando se esta seria uma maneira de mostrar o quanto elas estão frescas ou se isso as deixaria mais irresistíveis. Lembrei até daquele quadro do programa do Gugu nos anos 90, que colocavam mulheres de camiseta branca e os participantes jogavam água nelas. Não lembro qual era o objetivo desse jogo, mas lembro que elas ficavam com os mamilos à mostra e talvez este fosse o objetivo: mamilos de graça, em horário nobre, na TV de casa.

Fui parar nos limões e na dificuldade descrita no início do texto. Escolhi alguns, joguei no cesto e fui pagar. No caixa, notei que a atendente, que sempre me cumprimenta com simpatia, estava com os cabelos curtos. Imaginei o quanto ela teria se sentido corajosa em cortar os cabelos tão curtos numa sociedade que te impõe padrões a todo instante e que preza por maçãs e camisetas molhadas, onde limões não fazem sentido e possíveis assediadores (pra não dizer mais) podem estar em qualquer esquina, ou fazendo compras no mesmo mercado que você. Ela me cumprimentou como sempre e todo o sentimento ruim, que carreguei desde a saída de casa até ali, foi embora.

Ao chegar em casa e tirar as compras da sacola, lembrei de um texto que fiz ano passado para o SOS Solteiros com dicas de como escolher certas frutas e legumes na feira. Conversei com 2 nutricionistas para enviesar meus argumentos e, inclusive, escrevi sobre como escolher limões. A forma, o cheiro, a cor, tudo isso implica na qualidade e no sabor de um limão. Mas eu esqueci tudo isso. Com limões em mãos, não fiz limonada, usei metade de um e espremi dentro de um copo que completei com mate gelado. Um pouco de cafeína e sentimentos expressivos para acordar neste fim de tarde de segunda-feira.

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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