Girassol

O Sol gira para todos.

“Nada é permanente nesta vida” foi o mantra que mais repeti mentalmente nos últimos meses. Nada é permanente, nem linear, tudo é mutável e está em constante movimento. Assim dançam os planetas, o clima, as plantas e as pessoas em torno da vida. Nunca nos dissemos “te amarei para sempre". Ambos somos materialistas, a gente sempre soube que nada era para sempre. Você mesmo me ensinou que “nunca se entra no mesmo rio duas vezes". O rio não é o mesmo, nós não somos os mesmos e não seremos. Mas, vivíamos como se não houvesse amanhã em vários momentos compartilhados. Até que precisávamos acelerar nossos passos envoltos à bonita ideia de viver juntos. Muitas viagens, muitas festas e eventos, muitas longas conversas sobre os meandros que envolvem a vida. Muitos momentos de partilha, tanto sobre ideias afins, quanto sobre nossos sofrimentos. Intensamente flutuávamos sobre a vida enquanto sobrevivíamos, ora sobre duras penas, ora com sinergia, em nossa rotina em conjunto. Até que chegou a pandemia e deflagrou brutalmente nossas fragilidades. Nos encaramos e não mais nos encontramos. Talvez mudamos demais, talvez fosse muito para enfrentar e cada um ia lidando com o momento com suas próprias armas. E, assim, sob um manto de constante pesar, notícias catastróficas e medo iminente, digladiamos entre si. As brigas que levavam aos ensaios sobre o fim foram amargando nossos dias, os abraços perderam o poder de curar, enquanto palavras dilaceravam a carne, deixando-a exposta e aberta. As feridas não tinham tempo de cicatrizar. Não houve remédio, pois, antes, não houve prevenção, e a esperança de um antídoto foi ficando cada vez mais distante, até se tornar inalcançável. Nos perdemos de nós mesmos, nos perdemos um do outro, diante de um abismo profundo e obscuro, que deu lugar à solidão. Tristes momentos se tornaram nossa realidade, até decidirmos que era hora de cada um caminhar só. Nessa empreitada recém-descoberta, como se nunca houvesse passado por isso antes, seguir solo se mostrou necessário, porém, o andar é pesado e cambaleante quando se está sobre muletas.

Não há nada que irá tornar este momento melhor. Pode até ser mais ameno, ainda mais se houver companhia e escuta ativa, mas encarar a si mesmo tem seu preço. Custa caro mergulhar em si, é solitário e desesperador estar submerso em seu próprio oceano de lamentações. Mas, uma hora se aprende a nadar e a perceber que a superfície está sempre evidente, como a luz que ilumina a escuridão. Pois, depois da tempestade, o mar sempre se acalma, trazendo consigo dias coloridos, que deixam a pele quente, secando as lágrimas e fazendo o suor escorrer.

Você foi embora, mas plantou sua semente. Me deixou flores que, hoje, representam uma maneira de encararmos este momento separados. Fiquei triste em saber que logo ela morreria e, pensar nisso, me arrepiou inteira, pois me lembrou que você nunca havia feito isso em todo o nosso relacionamento e a morte da flor representaria o triste fim que nos acomete. No entanto, você mesmo me alertou para plantá-la no solo. E, diferente da rosa, símbolo de romantismo, que se espera ganhar de seu companheiro como num aceno a tempos antigos— uma vez tirada da terra, sobrevive pouco, como as paixões fugazes, cheias de espinhos — , o girassol emana o Sol com sua boa energia e vitalidade. E a flor, que já estava perdendo suas pétalas, como num jogo despretensioso de bem-me-quer, agora terá mais que sobrevida e, em algum dia — se der sorte — , mas necessitando de rega e solo fértil, irá crescer mais, se fortalecerá e florescerá continuamente, como a ideia de mantermos nossos laços de amizade.

“A amizade é o nosso maior bem", você mesmo me ensinou sobre Aristóteles, durante nossa melhor viagem, quando falávamos sobre a importância de nossos amigos em meio àquele lindo cenário de pôr do Sol, mar em encontro com o rio, serenidade e alegria.

Obrigada por tudo.🌻

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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