Maldade

Sexta é dia de maldade. E é assim que eu começo o primeiro textão do ano: com muita, mas muita maldade. Quero mesmo é chutar no saco da falsa demagogia. Falar umas verdades escondidas. Aterrorizar as famílias tradicionais com um pouco de psicologia. Dar voadora na cara da hipocrisia. Xingar o papa, o padre, o pastor. Hoje é sexta. Finalmente sexta. Primeira sexta do ano. E eu tô insana. Tô maldosa. Querendo esmurrar o mundo com um pouco de sinceridade. Dar tapa na cara. Torcer o nariz. Dar com os ombros. Maltratar. Pisar. Gritar até os tímpanos de outrem estourar. Ah e vocês vão ler. E pela rude dialética vão se atrair. Vão refletir. Vão se identificar. E a minha mão querer apertar. Mas o papo é sério. Ou tá achando que eu sou isqueirinho? Que só boto a lenha na fogueira? Vai tirando… EU TACO É FOGO, meu amigo! Presta atenção. Porque o que eu tenho a dizer é sinistro. Eu sei que você tá cansando. Mas pode crer que eu tô tão cansada quanto você. Pode crer que eu quero ver. Você sacudir a cabeça e assistir a essa maldade que eu vou soltar com muito prazer:

VOCÊ SÓ FALA DA SUA VIDA!

Ou melhor, só reclama. Pois é, eu disse que era maldade. Você só não sabia que eu precisaria ser egoísta pra apontar o seu egoísmo. Você me acha hipócrita agora. Eu não discordo. Mas você também já pensou no mesmo que eu? Me responde: quantos migos e migas têm realmente interesse em te ouvir? Quantas pessoas você conhece que só sabem falar delas mesmas? Quanta gente te personifica em descarga ambulante? É, mana, descarga. Que te deixa tão carregada que nem água com limão no jejum diário vai aliviar esse teu inchaço. Porque todas as pessoas do mundo estão mais preocupadas em narrar sobre a viagem delas, sobre as resoluções de ano novo delas, sobre as tristezas e anseios delas. Tá em todo lugar. No youtube. No snapchat. No Instagram. Elas não ligam pra você. Enquanto você passa o dia chupando o dedo, fingindo se contentar com um salário que não sobra, olhando pela janela o dia passar e você sentado com cara de cu imaginando o que de melhor você poderia fazer neste exato momento.
Você passa uns dias na praia, no interior, no exterior ou enfiado dentro de casa transformando Netflix em lasanha, entupindo suas artérias com muita gordura saturada temperada com bastante sal grosso pra liberar o sódio. E depois de uns dias se vê submerso novamente no caos. No fruto da maldade. Terra de ninguém. Vê fome. Vê desigualdade. Vê chacina. Vê mulher sendo culpada pelo próprio assassinato. Vê #bolsonaro2018. Vê João Doria vestido de gari. Vê marca lançando cerveja pra “mulher” como se fosse algo legal. Vê poluição. Vê gente pedindo esmola. Vê um monte de carro. Um monte de gente. Um monte de loja. De shopping. De dinheiro sendo gasto. De sacanagem. Você vê tudo isso e fica furioso, cheio de maldade. Porque não dá pra salvar o mundo. E nem o mundo vai salvar você. Daí você se abstém e começa a pensar no seu projeto pessoal de ano novo. E vai compartilhando com geral e também se esquece de perguntar como eles estão. Você vai vivendo e a angústia do pós-recesso vai ficando no passado. Porque você tem pressa e a cidade também. Cada dia você está mais inserido na rotina que há poucos dias era distante e desgastante de imaginar. E vai ignorando várias coisas. Subtraindo outras. Até sucumbir no maldito looping que envolve trabalho, relações interpessoais, pensamentos e preocupações com dinheiro, futuro, carreira, casa, família, namoro, casamento… E daí que você se cansa. Manda tudo à merda. Vamo encher a cara. Se jogar no poço dos prazeres baquianos. Esquecer essa porra toda. Afinal, é sexta e sexta é dia do que?

Feliz 2017 pra todo mundo. Com sinceridade.

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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