Mientras tanto

Eu costumo dizer que as vezes a vida não te dá um sacode, ela te dá um rola mesmo. Em que você é jogado ao chão, e fica ali parado, se sentindo assustado e pequeno, de olhos fechados, mas tentando respirar. Aos poucos, abre os olhos, encara a situação enquanto enxuga a testa. Você está no meio do nada, uma floresta, uma encruzilhada, sob o asfalto e seus velozes carros ou na natureza e seus riscos desconhecidos. Então, começa a se rastejar, e vai tentando, com o que pode, sair um pouco do lugar, porque seu corpo não tem forças e muito menos fôlego pra se levantar. Daí você vai se agarrando às pequenas coisas que estão ao seu redor: um galho de árvore, uma pedra ou uma pequena montanha, se segura com rigidez por meio de movimentos bruscos, até perceber que ela na verdade é um formigueiro. Seu corpo então é tomado por aqueles insetos, minúsculos e quase inofensivos quando sozinhos, gigantes e mortais em coletivo. Sob um ímpeto de se salvar, você levanta e corre à procura de água, mas suas pernas fraquejam, você escorrega e cai de boca num córrego. Seu sangue escorre, assim como as formigas, uma a uma, ainda que deixando suas marcas que fazem latejar a pele. Como a dor veio o alívio, mas você tem certeza de que não há nada de heróico nisso, você apenas está tentando ficar vivo.

Combalido novamente, mas com as roupas molhadas e feridas abertas, você nota o cair da noite e mesmo sabendo de sua vulnerabilidade iminente, você contempla a beleza da lua e seu poder de iluminar a escuridão. Por alguma razão se sente parte do universo, com sua natureza repleta de mistérios e criaturas traiçoeiras, a cidade grande com seu caos e perigos declarados, e a imensidão dos céus, suas estrelas e asteróides reluzentes e percebe que você é apenas um dentre tantos. Esse sentimento te reconforta ao em vez de te fazer temer e é então que você percebe que o Sol já nasce no outro horizonte e que há outras pessoas na mesma situação que você. Algumas estão em pé, outras estão se rastejando ou dando os primeiros passos, mas você, você se arrastou, levantou, correu, caiu de novo e irá se levantar novamente.

Surgem braços, te seguram, você cambaleia, sente a tontura penetrar a mente, mas vai caminhando. Passo a passo. Bebe água, se alimenta, vai recuperando força para caminhar só, recolhe suas coisas do chão, vai colocando tudo numa mochila ou bolsa de mão e abandonando o que não cabe. Agradece profundamente aos que te acolheram, mas sabe que sua jornada é outra e segue. E segue.

“Rolei na terra. A bença, Atotô. Seu Xaxará, a ferida secou”.

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

Angélica Yassue

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