Se não tem revolução o que nos resta é a depressão?

Alienação do trabalho

Um sentimento de imenso desespero dominou geral após as eleições de 2018. Assim como a impotência. Sensação essa que não para de aumentar o buraco embaixo dos pés. Buraco esse que por vezes me faz sentir no fundo de um poço, sem luz para conseguir enxergar qualquer forma de sair dali.

Sei que não estou sozinha nessa, mas por vezes a sensação é tão forte que me isola de todo o resto. Sei que não basta saber o quão na merda estão outras pessoas, incluindo pessoas próximas de você. Não, a gente não se encontra na dor. Porque a dor vem de uma hora para outra, sem você esperar e especialmente quando você está tentando dormir ou quando desperta, em desespero, pela manhã, sabendo que tem que enfrentar mais um dia.

A dor te pega quando você está sozinho, mesmo quando há outros ao seu redor.

Como andar nas ruas e observar diversos “bikeboys” correndo, de um lado para o outro, carregando caixas gigantes e pesadas, sabendo quanto ganham por dia e como deve ser dura a realidade deles, e não sentir revolta?

Como perceber que, nas mesmas ruas, outras pessoas vivem em uma realidade totalmente diferente, impenetráveis em seus carros importados, ar condicionado ligado, onde nem o vento é capaz de atingir?

É um exemplo da paisagem que vejo diariamente no bairro que trabalho. É um exemplo, dos muitos, onde se vê nitidamente a diferença de classes, a violência de classe.

Como não ficar com ódio? E, do ódio, sentir profunda tristeza?

Depois das eleições, lembro que me sentia histérica. Queria gritar na rua o quanto estava puta com aquela situação. Lembro que me peguei várias vezes chorando, às vezes relutando contra minha vontade de sumir (não de fugir para outro país, porque isso nunca passou pela minha cabeça desse tempo para cá), assim como aos poucos conseguia ir transformando minha fúria em vontade de agir. Assim, desesperadamente, virei uma agitadora. Me reuni aos meus para gritar contra as mortes de jovens, negros e pobres, de mulheres, de indígenas, de militantes da esquerda, contra a reforma da previdência, contra os cortes na educação — me lembrei de quando gritei para a passagem não aumentar, para o golpe não passar, para o fascista não se eleger, para pararem de nos matar (mulheres), para não precarizarem nosso trabalho mais ainda (contra a reforma trabalhista) — e não tivemos trégua. Gritamos tanto e ninguém nos ouviu. Ninguém, quem?

Ficamos sempre reivindicando coisas e quando se reivindica algo, se pede algo a alguém. E essa lógica não vai mudar enquanto esse sistema não mudar.

“(…) O proletariado afirma-se como classe com interesses distintos e antagônicos ao capital quando se organiza para buscar maiores salários ou melhores condições de vida e trabalho.
No entanto, o proletariado, ao se assumir como classe, afirma a existência do próprio capital. Cobra desse uma parte maior da riqueza produzida por ele mesmo, alegra-se quando consegue uma parte um pouco maior do que recebia antes. A consciência ainda reproduz o mecanismo pelo qual a satisfação do desejo cabe ao outro. Agora, ela manifesta o inconformismo e não a submissão, reivindica a solução de um problema ou injustiça, mas quem reivindica ainda reivindica de alguém. Ainda é o outro que pode resolver por nós nossos problemas.
(…) Mas, digamos que essa luta atinja seus objetivos, que a greve seja vitoriosa. Os trabalhadores retornam ao trabalho com suas reivindicações atendidas. Estão novamente aptos a revalidar as relações de exploração, o trabalho alienado, ou seja, o próprio capitalismo.
Isso porque, ao se assumir enquanto classe, o proletariado nega o capitalismo afirmando-o. Organiza-se como qualquer vendedor que quer alcançar um preço maior por sua mercadoria. Portanto, em sua luta revolucionária, não basta o proletariado assumir-se enquanto classe (consciência em si), mas é necessário se assumir para além de si mesmo (consciência para si). Conceber-se não apenas como um grupo particular com interesses próprios dentro da ordem capitalista, mas também se colocar diante da tarefa histórica da superação dessa ordem.”
Mauro Iasi — Ensaios sobre Consciência e Emancipação

Hoje me pergunto o que a gente faz com as informações que tem, porque noto que quanto mais se sabe, mais se aumenta as chances de adoecer — e não sei metade do que gostaria de saber ("Só sei que nada sei", argh!). Pedi afastamento de onde estava para inclusive repensar se o caminho que estava sendo seguido pela frente era viável, se realmente era capaz de transformar alguma realidade, e também para resolver questões da vida, como me organizar em outros termos, por exemplo. E até agora, meses depois, não me sinto suficientemente organizada para voltar ou para começar em outra militância, ou manter as duas — como é a minha pretensão. Isso tudo porque me sinto exausta, não apenas pela mudança de rotina, mas porque o trabalho me consome, me desgasta. E como me sobra tempo para fazer tudo o que preciso: cuidar de mim, da minha casa, da militância, estudar e ainda resolver pendências que só agora — com o salário que este trabalho me paga —, irei conseguir? Me sinto sufocada.

Não posso pedir afastamento do meu trabalho, o que realmente me traria tempo para refletir melhor sobre minhas escolhas e também decidir onde dedicar meu esforço fora dele.

Daí, dias atrás, li um texto do Gregório Duvivier que dizia para transformar o ódio em vontade de fazer algo e agir, para, inclusive, evitar a depressão. Achei que tinha argumentos poeticamente válidos na reflexão, mas que precisavam ser explicitados, afinal, tem muita gente se perguntando quê fazer e mais gente ainda com depressão. Perguntei para a pessoa que compartilhou o que significava “agir” e como próprio Gregório estava “agindo”, para ela. E ela, sem muita certeza, disse que era preciso lutar pela retomada da democracia. Pensei: mas que democracia é essa que sempre falhou quando o assunto é a desigualdade social? Que democracia é essa que prendeu arbitrariamente um dos maiores políticos da nossa história? Que democracia é essa que não para de matar jovens, pobres, negros, indígenas, mulheres? Que democracia é essa que nunca vai nos salvar?

Chego à conclusão de que essa democracia não está em vertigem, essa democracia é a mesma de sempre, pois ela nunca foi feita para o povo. E, se for para lutar por uma democracia que não seja apenas para favorecer os burgueses, então, é preciso um movimento muito mais radical que reivindicar direitos que esta democracia não irá ceder. É preciso abandonar a ilusão de que é possível uma democracia válida dentro do capitalismo. É preciso revolucionar, é preciso dizer que agir de fato é lutar pela revolução — coisa que não tem como esperar os Gregórios dizerem, porque eles nunca dirão.

E como que luta pela revolução sem formação? Sem organização? Sem tempo, irmão?

Como que faz para não deixar o capitalismo te sugar sendo que você tem que vender sua força de trabalho para sobreviver?

Acalmar a mente. Primeiramente. Principalmente.

Cansei.

Continua…

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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