amor é ação e verbo

Tudo sobre o amor: novas perspectivas, da bell hooks, voltou a ser meu livro de cabeceira e volto a indicá-lo para todo mundo. A autora pós-moderna foi uma feminista negra, antirracista e anticapitalista estadunidense, que foi influenciada pela pedagogia de Paulo Freire e faz um estudo riquíssimo ao tratar de algo que todo mundo fala, o tempo todo, mas que poucos querem discutir sobre: o amor, fazendo paralelos com política, sociabilidade, maternidade e parentalidade, capitalismo e daí por diante. É TUDO sobre o amor. E aqui, concluo: pouca gente sabe amar. Eu mesma, tô aprendendo. Então, trago alguns ensaios sobre as inúmeras reflexões que ela traz, comentando sobre alguns pontos de atenção do livro — que estou retomando, então, talvez eu volte a falar disso em outro momento.

Vale ressaltar que bell hooks não apenas destrói a ideia de amor romântico aqui, como nos provoca a nos libertar das amarras construídas por anos de socialização machista e mostrando o quanto o capitalismo é o principal perpetuador do nosso sofrimento individual e coletivo. Então, é preciso se preparar para essa leitura, estando de coração aberto para conseguir compreendê-la.

Para bell hooks, amar não é somente um sentimento ou substantivo, amar é um verbo cuja prática se estende para além daqueles objetos onde centralizamos o ato de amar e o quanto as violências que sofremos desde a infância, e que continuam existindo em tudo o que a gente vê e consome, vão minando o poder de praticar esse amor de maneira honesta e genuína. Por exemplo: quando se é criança, num lar onde é comum os pais baterem em seus filhos para repreender, ensinar ou punir, e depois são carinhosos e dizem que fazem isso por amor, automaticamente se compreende que amor também é violência. Essa violência é internalizada nos fazendo creer que amar também representa magoar, punir, possuir, maltratar e negligenciar. Naturalizamos este comportamento, mesmo percebendo o quanto ele nos faz mal. Por isso é comum ver pessoas adultas tendo relacionamentos destrutivos, sejam de fruto afetivo-sexual, de fraternidade ou familiar e o quanto é difícil se libertar deles.

A falta de comunicação aberta e honesta, tratar as crianças como seres que possuímos, porque somos mães ou pais e não como indíviduos e sujeitos de direitos, também confere esse desamor, porque se não conseguimos adquirir o hábito de falar sobre os nossos sentimentos, se nossos sofrimentos são constantemente negligenciados, se quando agimos através de desejos e ímpetos somos punidos com violência verbal e física, como podemos aprender a praticar o amor mesmo depois de crescermos e nos tornarmos adultos?

Vou trazer outra reflexão: Bolsonaro. Imagina como deve ter sido o lar onde este ser cresceu? Agora, pense: por que ele atrai tanta gente? Ele representa nada menos do que a figura paterna que já existia no imaginário comum e, portanto, naturaliza-se seu comportamento. Se repararmos, grande parte de seus seguidores (não falo de eleitores que se arrependeram, falo de gente que o ovaciona até hoje para além do anti-petismo), não são influenciados pelas resoluções políticas e econômicas (que ele pouco traz), eles se atraem pelo que ele representa, por seu comportamento errante e seus julgamentos morais.

Quantas pessoas não tiveram na vida um pai punidor, castrador, autoritário e insensível e que mesmo assim se sentiam na obrigação de amá-lo — e a confusão que isso traz — porque, afinal, ele é seu pai? Quantos homens brasileiros não se identificam com o comportamento dele e, portanto, se sentem respaldados a continuarem agindo do mesmo jeito? Respondendo a essas perguntas, é fácil entender porque muitas pessoas se identificam e identificam seu próprio pai, ou a ideia de como um pai deveria ser (na ausência de um). Não existe amor aí, existe uma ideia de um sentimento que achamos que deve existir porque aprendemos que devemos senti-lo e nos culpamos quando não acontece.

Outro ponto: mesmo quando se é de esquerda, socialista, comunista, enfim, quando se acredita que a nossa sociedade, assim como o nosso sistema, deve ser mudada, é obviamente fácil sentir desprezo por certos comportamentos como o do atual presidente, assim como sobre o que ele pensa e faz. Mas, e o amor, onde fica nisso? Na militância de esquerda, mesmo a gente atuando diariamente por objetivos em comum, também acontece de nos tratarmos mal, seja porque estamos atoladas de tarefas para serem cumpridas com prazos apertados que vão muito além do arroz com feijão que temos que entregar no nosso trabalho, e a prática disso tudo não é feita somente com o amor que temos pela ideia de mudar as coisas, é na base da correria, do modo automático, e, infelizmente, isso abre também margem para o desamor em sua forma mais individualista: a competição entre quem faz mais, o personalismo de quem está mais preparado para tal coisa, o desdém a quem faz pouco ou não faz da maneira que esperamos, e isso acontece também por causa da falta de tempo, espaço e acolhimento dentro das organizações para questões que não sejam apenas resolver algo material — que é tido como mais urgente do que a saúde mental de seus militantes. Daí fica evidente que estamos apenas reproduzindo a violência que o sistema nos condiciona por toda a nossa vida e esse desamor se torna maior do que a camaradagem que deveria ser uma regra e não somente um princípio esquecido nas gavetas dos diretórios e gabinetes. Nem vou comentar de trabalho, porque daí é reproduzir contradições o tempo todo, a não ser que você seja privilegiado e pode falar que trabalha com o que ama, se esquecendo que não é a mesma realidade para 99% da população mundial — e ela também trata disso quase o livro todo.

A camaradagem que mencionei é uma prática do amor. bell hooks fala que numa sociedade capitalista - ainda mais vivendo num país imperialista que subjugou tantas nações e esfacelou tantas vidas a troco de poder — , é comum que a gente sinta constantemente essa falta de amor. O amor virou uma moeda de troca em que, na sua ausência, se compra as coisas, se transforma em vícios de todos os tipos, como maneiras de tentar suprir algo que também não colocamos em prática nem com nós mesmas. Ela fala, em diversos momentos, da impossibilidade de praticar esse amor na sua totalidade num coletivo que produz e reproduz o desejo do consumismo o tempo todo, sendo mais difícil ainda quando se vive numa metrópole, onde cada uma mora numa caixa de sapato e não conhece a vizinha ao lado.

Mais uma reflexão: quando bell hooks começou a pesquisar sobre o amor de forma filosófica e se debruçou em diversos materiais, como filmes, escritos, séries etc, notou que a maioria dos livros mais aclamados sobre o tema foi escrita por homens e, interessantemente, ainda que sejam eles a serem mais lidos, quem mais consome essas leituras, se preocupa e pratica o amor são as mulheres. Ela fala sobre como os homens definem o que é o amor com base no que estão acostumados a receber, às mulheres cabe o papel de oferecer isso convivendo com a falta desse amor. Ou seja, a ideia do amor é oriunda da reprodução do sistema patriarcal que nos acomete.

Mas, nada disso, nenhuma das situações mencionadas, nos impede de praticar o amor ou, ao menos, tentar. Reproduzir o amor, colocá-lo em prática, é muito além de dizer que se ama, como define a autora:

Começar por sempre pensar no amor como uma ação e não como um sentimento, é uma forma de fazer com que qualquer um que use a palavra dessa maneira automaticamente assuma responsabilidade e comprometimento. (…) Quando amamos, expressamos cuidado, afeição, responsabilidade, respeito, compromisso e confiança.

Ela também traz a confusão que é feita entre catexia e amor; sentir-se cuidada e de fato ser amada; sentir profundo desejo sexual e se dedicar para a relação, com realmente amar. Enfim, vale pesquisar sobre os termos e entender qual definição bell hooks nos traz sobre o ato de amar, que é um misto de: cuidado, afeição, responsabilidade, respeito, compromisso e confiança. Não posso deixar de mencionar a necessidade dessa ação ser colocada em prática por nós para nós mesmas e o quanto é poderoso trabalhar o amor próprio, lembrando, novamente, que não é apenas um sentimento.

Quando amplificamos o ato de amar para além das nossas relações interpessoais mais próximas, da família nuclear, nem os casais, muito menos o individualismo, e levamos isso para a comunidade, bell hooks diz que é aí que desenvolvemos a comunhão amorosa, formada por:

(…) indivíduos que aprenderam como se comunicar honestamente uns com os outros, cujos relacionamentos são mais profundos que suas máscaras de compostura, e que desenvolveram o compromisso de “alegrar-se juntos, lamentar juntos” e de “deleitar-se uns nos outros, transformar em suas as condições dos outros”.

Para isso acontecer, de fato, é preciso que as pessoas envolvidas estejam dispostas a transformarem o amor em ação: cuidarem umas das outras, se importarem, respeitarem, assumirem compromissos e responsabilidades e a fortalecerem laços fraternos pautados na genuína vontade de dar e receber amor, nada além ou menos que isso.

Acho que continua…

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

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