Uma mulher que luta é uma mulher que nunca se curva

Nunca mais pelo menos.

Passei muito tempo nos últimos anos flertando com o abismo que existe entre a teoria e a prática. Não falo de práxis revolucionária, falo sobre as questões individuais que advém de todas as ideias que absorvi nesse período e me confundi com o que fazer com elas. E neste último ano, parece que a derrubada de qualquer vislumbre de concepção formada sobre coisas que custei a acreditar a vida toda veio com força. Minha torre caiu. Mas, ela já era bamba. Deixei sangrar e continua pulsando e escorrendo.

Colhi meus caquinhos e costurei novas definições, pintei minhas paredes, comprei vasos de plantas, lotei minha casa de cores e signos, questionei o amor (romântico), abracei meu lado mais radical e joguei-o para o coletivo. Recebi camaradagem, amizades, sorrisos, construções, responsabilidade, assédio sexual, estresse e caos. Quis sair correndo muitas vezes. Dediquei dias e noites a imaginar como seria outra vida, em outro lugar, com outras companhias. Tentei abstrair, negar a realidade. Sonhei com praia, campo, outra cidade, outro país, um antigo amor, um novo amor. Engoli a seco, na calada da noite, chorei embaixo do edredom, senti na pele a solidão, achei que fosse morrer engasgada, intubada, que fosse capaz de matar meus pais após abraçar um amigo ou tomar uma gelada na mesa de bar. Procurei ar puro, vacinei, desenterrei a canga do armário, coloquei meu corpo sob o sol, conheci outros abraços - alguns amargos -, gostos e velhos tragos, me emocionei, enlouqueci, quis gritar, quis fugir. Mas, continuei aqui.

Me endividei, adoeci, adormeci, desmoronei, renasci. Mil vezes. Mudei de casa, arrumei, destrui, reformei, extravazei, engordei, emagreci, me entorpeci, rejuvesneci. Não corri. Sobrevivi.

Assumi minhas verdades, escancarei-as para quem quisesse ouvir. Articulei, sofri, comemorei, derrubei, me expus, explodi, cantei, dancei, me refiz, me descontrui, me espetei, me cortei, gozei, lutei, lutei e lutei. Hoje, sorri. Luto, ainda. E lutarei enquanto houver vida.

Fui responsável e esqueci de mim. Me perdi e me perco no meio de pensamentos desconexos ou submersos. Lido com o mergulho dentro de mim, parece um sufoco, mas consigo facilmente emergir. Respiro ali, volto para mim. Tenho muito ar e muita terra. Gosto de fogo, me falta água. Não sei exatamente o que busco, só sei que não vou desistir.

Encontro novos significados, novas cores e sabores, novas práticas, novos amores, acordes e estrófes. Tenho muitos livros para ler, muitos quadros para pintar, muitas plantas para regar, muitas músicas para ouvir, cantar e dançar, muitas ideias para formar, muitos estudos para aprender e ensinar, muita construção para organizar, muitas viagens para fazer, muitos sonhos para considerar, muitas batalhas para enfrentar e conquistar, muitas festas para celebrar, muitos copos para encher, muitos beijos para acender, e, espero, muita vida para viver.

Continuarei lutando e comemorando a luta.

Sempre desobedecer, nunca reverenciar.

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comunicadora social, militante das liberdades emancipadoras, com muitas ideias apaixonadas para mudar o mundo e a si mesma. aqui vc encontra crônicas e emoções.

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Angélica Yassue

Angélica Yassue

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